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O direito a respostas dos funcionários do Banco do Brasil

  • há 26 minutos
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O direito de resposta é um mecanismo jurídico consagrado pela Constituição Federal de 1988, destinado a equilibrar a liberdade de expressão com a proteção da honra, da intimidade, da vida privada e da imagem, assegurando a quem se sentir ofendido por uma publicação a possibilidade de se manifestar nos mesmos meios de comunicação e em condições equivalentes.

Em 22 de julho de 2026, quase dois meses após a publicação do informativo Espelho DF, intitulado “Conselhos ignorados, erros repetidos”, o Banco do Brasil encaminhou notificação extrajudicial ao Sindicato dos Bancários de Brasília exigindo a divulgação integral de um texto elaborado pela própria instituição, acusando a entidade sindical de promover uma campanha de desqualificação pessoal contra a presidenta do Banco do Brasil.

Embora não reconhecendo a existência do direito de resposta nos termos pretendidos e a procedência das acusações formuladas, o Sindicato decidiu, voluntariamente, divulgar a manifestação encaminhada pelo Banco do Brasil.

Louvemos, portanto, a Constituição que assegura a liberdade de expressão e permite que divergências, críticas e diferentes visões de mundo possam se confrontar democraticamente no campo das ideias. Até aí, tudo certo — como dois e dois são cinco, diria Caetano Veloso.

O problema começa quando a crítica à gestão é interpretada como um ataque pessoal e, com isso, deixa-se de discutir aquilo que efetivamente está em debate.

Em sua manifestação, a presidenta do Banco do Brasil afirma que, com o tempo e a experiência, aprendeu que liderar é, muitas vezes, “suportar”, reconhecendo, no entanto, como legítimas as preocupações dos trabalhadores com as condições de trabalho, o futuro das agências, a tecnologia e as carreiras, afirmando que essas questões merecem ser tratadas com respeito.

Cara presidenta, é justamente aí que reside o ponto central da crítica sindical. O que a publicação denuncia é o quanto tem sido insuportável para muitos colegas a sucessão de reestruturações promovidas pelas diferentes administrações do Banco do Brasil, os descomissionamentos considerados injustos pelos trabalhadores, o estabelecimento e a cobrança abusiva de metas, a intensificação do trabalho e o aumento da carga horária em muitas unidades.

Não se trata, portanto, de uma questão pessoal, mas de uma crítica ao modelo de gestão e às consequências concretas que ele produz. Entre essas consequências está o crescimento do adoecimento mental dos trabalhadores, fenômeno que não pode ser ignorado quando se discute as relações de trabalho no Banco do Brasil.

Na manifestação encaminhada pela instituição e publicada pelo Sindicato, a Presidenta também destaca que “precisamos ser um banco cada vez mais digital sem abandonar quem ainda precisa do atendimento presencial”.

A afirmação, em princípio, dialoga com uma preocupação igualmente presente na crítica sindical: a digitalização não pode significar abandono do atendimento presencial nem redução indiscriminada da estrutura necessária para atender a população. É justamente essa contradição que precisa ser enfrentada.

Enquanto o Banco afirma que pretende ampliar a digitalização sem abandonar aqueles que dependem do atendimento presencial, a realidade percebida pelos trabalhadores é marcada pela redução progressiva da estrutura física e do número de empregados nas unidades.

Desde 2015, segundo dados do Banco Central, o Banco do Brasil fechou cerca de 1.557 agências físicas em todo o país, como parte de um processo gradual de reestruturação e digitalização dos serviços financeiros.

Ao mesmo tempo, a base de clientes continua crescendo. Em março de 2026, o Banco do Brasil alcançou aproximadamente 83 milhões de clientes, cerca de 1 milhão a mais do que no período anterior. Ainda assim, a estrutura de pessoal segue sendo reduzida. Ao final do primeiro trimestre de 2026, o Banco contava com 84.619 funcionários, registrando 1.498 postos de trabalho a menos em 12 meses e uma redução de 587 empregos somente neste ano.

A equação, portanto, merece ser discutida: mais clientes, menos trabalhadores, maior intensidade do trabalho e maior pressão por resultados. Não é uma questão de opinião deste ou daquele dirigente sindical. É uma realidade que precisa ser analisada.

Levantamento publicado pela Contraf-CUT revelou que a categoria bancária está entre aquelas que apresentam elevado número de afastamentos relacionados a doenças mentais decorrentes do ambiente de trabalho.

Dados da Previdência Social, compilados pela plataforma SmartLab, mostram que gerentes de banco ocupam o segundo lugar e, escriturários de banco, o terceiro no ranking de profissionais com mais pedidos de afastamento por transtornos mentais reconhecidos como doença ocupacional (B91), entre 2012 e 2024.

Diante desses dados, a crítica às condições de trabalho e ao modelo de gestão não pode ser reduzida a uma questão de opinião, ou, menos ainda, interpretada como uma tentativa de desqualificação pessoal de quem ocupa a presidência do Banco.

Uma organização democrática precisa ser capaz de distinguir pessoas de processos, responsabilidades institucionais de características individuais e críticas às decisões administrativas de eventuais ataques à honra pessoal.

É justamente nesse ponto que a reflexão de José Saramago, em Ensaio sobre a Cegueira, pode nos ajudar. A chamada “cegueira branca” funciona como uma poderosa alegoria da incapacidade de perceber a realidade para além das aparências.

Os personagens da obra, diante do colapso que se instala, passam progressivamente a naturalizar situações que deveriam provocar indignação, reflexão e reação. Nas organizações, algo semelhante pode ocorrer quando determinadas práticas passam a ser consideradas normais simplesmente porque se repetem ao longo do tempo, ou porque se entende, geram maior resultado.

Naturalizam-se as reestruturações. Naturalizam-se as metas excessivas. Naturalizam-se os descomissionamentos. Naturaliza-se a sobrecarga de trabalho. Naturaliza-se o adoecimento. E, quando essas práticas passam a fazer parte da rotina, corre-se o risco de deixar de enxergar seus efeitos sobre as pessoas.

Essa “cegueira” pode ser alimentada pelo medo de promover mudanças reais, pela acomodação institucional ou pela defesa de interesses que, embora possam ser legítimos, não podem servir como escudo contra a crítica.

O problema se agrava quando argumentos fundamentados em fatos e evidências são substituídos por interpretações sobre as supostas intenções daqueles que criticam. Nesse momento, o debate deixa de se concentrar nos problemas concretos e passa a discutir quem fez a crítica e por que a fez.

Em vez de perguntar “a crítica procede?”, passa-se a perguntar “por que estão criticando?”. Em vez de analisar os fatos, procuram-se intenções. Em vez de enfrentar os problemas, questiona-se quem os denuncia.

Para evitar essa distorção, é necessário que as partes sejam capazes de distinguir pessoas de processos e analisar as críticas a partir de fatos, evidências e consequências concretas.

A principal lição de Saramago talvez esteja justamente aí: o maior risco não é apenas deixar de ver, mas deixar de perceber criticamente aquilo que está diante dos nossos olhos e que, pela força do hábito, passou a ser aceito como natural.

Ao evidenciar a preocupação dos funcionários com o futuro do Banco do Brasil, de suas agências, de seus empregos e de suas carreiras, o Sindicato não está fazendo um julgamento sobre a pessoa da presidenta do Banco, mas sobre a gestão do maior banco público do país. Está fazendo aquilo que se espera de uma entidade de representação dos trabalhadores: questionar decisões, apontar contradições, apresentar evidências e cobrar respostas.

Por isso, é importante, nesse momento, inverter a lógica do debate.Se a Presidenta afirma que liderar é, muitas vezes, “suportar”, os funcionários também esperam que liderar signifique suportar a crítica, ouvir o contraditório e transformar a escuta em ação.

Porque ouvir não pode ser apenas um exercício de comunicação. Ouvir precisa significar estar disposto a responder. E, sobretudo, estar disposto a mudar quando as evidências demonstrarem que é necessário mudar.

Essa é, afinal, a pergunta que fazemos para a atual gestão do Banco do Brasil: a disposição de ouvir os trabalhadores produzirá respostas e mudanças concretas capazes de melhorar suas condições de trabalho e preservar o futuro do Banco público, ou a escuta será apenas um instrumento para legitimar decisões que já foram tomadas?

Os funcionários do Banco do Brasil reivindicam, Presidenta, o direito de serem ouvidos, de questionar decisões que impactam suas vidas e de seus familiares, de discordar e, principalmente, de receber respostas as suas legítimas preocupações.

Artigo escrito pelo Coordenador da Secretaria Geral da Fetrafi-SC, Marco Silvano.

Imagem: Adaptação da capa do livro de José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”

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Inovação para avançar
na luta pelos direitos 
dos trabalhadores

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